O
sol que entrava pela janela a fez piscar. Que bela dor de cabeça estava
sentido. Será que tudo aquilo tinha sido um sonho ou ela realmente fez o que
fez? Olhou ao redor e se deu conta que estava de volta ao seu antigo
apartamento. Então de fato ela estava no Brasil. Tentou se levantar, mas a dor
de cabeça não permitiu. Pensou: ‘Ok, vamos lá, lembranças de ontem... Vinho,
vinho, cartas, mais vinho. Oh não, não. Eu não fui a casa dele, fui?’
O
celular vibrou na cabeceira ao lado com uma música estridentemente animada. Isso a fez ter
vontade de quebra-lo. Olhou o visor: Número desconhecido. Com o mau humor de
uma noite de porre, atendeu: “Alô?”.
A
voz do outro lado era familiar e parecia bastante zangada: “Porra Bárbara, que
diabos foi aquilo?”.
E
isso instantaneamente fez sua dor de cabeça se elevar em uns 10 graus. Ela se
levantou e lentamente procurou por algum remédio para dor de cabeça na sua
bolsa.
“Fernando? Como você conseguiu meu número?” perguntou enquanto tomava o remédio
e se deitava novamente.
“Isso
não importa. Tenho meus contatos. Eu só quero entender o que aconteceu ontem.
Do nada você aparece na minha porta, sem avisar, anos depois de simplesmente me
mandar ir pro inferno. E eu tenho que te informar que eu fui mesmo”.
“Foram
3 anos” disse ela calmamente.
“3
anos” ele ri sem achar muita graça. “Por que apareceu agora?”
“Eu
não sei. Eu só estava aqui ontem, bebendo vinho, e fui ler as cartas que você
me mandava, daí tudo que me lembro vagamente é de estar na frente de sua casa,
com você parado olhando pra mim com aquela expressão que ainda me assusta.”
“Depois
de tanto tempo sem atender minhas ligações, sem mandar carta ou responder uma
mensagem. O que você esperava?”
“Eu
não sei, eu não pensei muito no caso” disse ela confusa.
Ele
suspira. “Quando você chegou?”
“Ontem
mesmo. Olha, eu não queria ter feito isso, me desculpa. Não vai voltar a
acontecer. Eu vou viajar novamente na semana que vem, me desculpa... ”
“Espera,
então vai ser assim de novo? Você vai fugir com medo de mim sem dar explicações?”
“Não
é de você que eu tinha medo. Era do que eu sentia por você. Eu sei que faz
muito tempo, sei que não tem mais como voltar. Mas saiba que eu nunca esqueci
você. Eu tentei, Deus é prova de que eu tentei, mas não deu. Por isso voltei,
por isso resolvi dar minha cara a tapa e ir te procurar. E que bela tapa que eu
levei ne?!”
“E
que motivos você teria para ter medo do sentimento que tinha por mim?”
“Eu
não sei, achava que se ficasse aqui ia me acomodar. Você me conhece, eu sempre
tive sonho de fazer doutorado fora, e ficar aqui ia ser muito pouco pra mim. Eu
não podia te obrigar a me esperar todo esse tempo.”
“Isso
explica muita coisa. Mas teria sido melhor te esperar do que viver o inferno
que eu vivi.”
“Mas
você superou. Isso que importa. Agora eu vou te deixar seguir sua vida. Achei que, sei lá, por um momento achei que talvez pudesse ser como
antes. Mas foi loucura, eu tinha bebido, me desculpa, sei que agora tudo mudou,
tem outros planos. Enfim, se cuida”.
“Espera,
do que você esta falando?”
“De
tudo, de tantos anos sem contato, de pessoas que conhecemos nesse tempo. Da
vida que construímos um longe do outro. Foi um erro, eu sei. E não tem mais
volta”.
Ele
permanece calado por um tempo e solta um longo suspiro.
“Olha,
eu não devia ter feito isso, aparecido do nada, me desculpa de verda...”
Antes
que ela terminasse de falar, ele pergunta: “Vamos tomar um chocolate quente e
conversar sobre isso pessoalmente?”
Isso
a pegou de surpresa, mas não teve como rejeitar. Foi como se borboletas
brotassem no seu estomago. Aquela sensação de ansiedade que há tempos não
sentia voltou e isso a fez sorrir largamente. E um fio de esperança surgiu...
“Claro”.
“Certo,
no lugar de sempre. Passo ai as 18:00. Tchau”.
“Tchau”.
Então
é isso. Eles iriam se ver, e dessa vez ela não iria fugir. Ela não deixaria o
medo tomar conta da situação. Talvez até pudesse falar de como havia sido esses
últimos anos. De como ele fez falta. Como o sorriso dele te dava forças todo
esse tempo e fez com que ela não desistisse. Como sonhar com ele toda noite era
o que a fazia sair da cama todo dia e se sentir viva. E de como havia voltado
por ele e para ele.
O
dia passou tão devagar, era como se as horas se arrastassem. O nervosismo e a ansiedade
eram típicos de uma adolescente apaixonada. Era assim que sempre se sentia
quando o assunto era Ele. A verdade era que ela mal podia esperar para revê-lo.
Ainda não sabia o que falar, não queria assusta-lo, mas sentia tanta falta
dele. Queria poder voltar no tempo e ter feito às coisas diferentes. Mas era
muito nova e insegura. Agora sabe que o que fez foi de fato errado. E estava de
volta para concertar.
As
18:00 horas estava pronta. Provou todas as roupas que tinha, não estava mais
acostumada a encontros. Ele havia sido o único cara com quem namorou. Como sempre pontual, ele tocou a campainha na hora marcada. Quando ela abriu a porta, lá estava ele. Exatamente
como ela lembrava. E aquele cheiro
familiar invadiu os seus sentidos. E ela sorriu.
“Nossa,
você está linda”. Disse ele.
“Acho
que a impressão que te dei ontem não foi das melhores” Ela riu sem graça. “Ainda
usa o mesmo perfume?” – Perguntou.
“Você
sabe, me apego às coisas” Sorriu. “Vamos?”
“Claro”
E
saíram. O caminho era muito familiar. Tudo ali era familiar. O cheiro, as ruas,
o sentimento. Não sabia como conseguiu ficar esse tempo todo longe. Mas voltou
para ficar.
“Chegamos.
O bom e velho chocolate da Nancy. Aposto que lá na Espanha você não tinha um
desses”. Ele disse, divertido,
“Realmente,
ninguém consegue superar a Nancy, você sabe... Voltei por ela” E os dois riram.
Caminharam
até uma mesa mais afastada, no ambiente estava tocando sucessos da banda Skank, e
aquele cheiro de chocolate com canela fez sua boca salivar. Só para matar a saudade, pediram a especialidade da casa. Ao sentarem, ela o
encarou, tomando coragem para falar.
“Olha,
eu sei que demorei muito pra voltar...”
“Fico
feliz que você tenha volta...” – Falaram ao mesmo tempo. E riram.
“Me
deixa começar” – ela pediu. “Tenho muita coisa pra falar. E se eu não falar
logo, posso não lembrar de tudo. Eu sei que eu fui uma imatura, que não pensei
em nos quando tomei a decisão de ir embora. Eu sei o que você passou, pois toda
noite eu chorava pensando em você. Mas foi sonhar com você todo dia que me deu
forças para continuar lá. Eu sei que eu arrisquei muito em ter feito isso,
sumido. Mas era a única maneira que eu via de conseguir me manter lá. E eu sei
que passou muito tempo, mas eu voltei por isso. Por você, pois nos. Sei que
pode ser tarde, mas eu precisava arriscar” – Falou de uma vez.
“Olha
Babi, eu sofri como um condenado aqui. E eu estava começado a superar agora. Eu
realmente não esperava te encontrar na minha porta ontem. E sem me avisar. Eu
não soube como reagir. Tentei te odiar esse tempo todo, mas não consegui.
Quando eu te vi ontem, só pensei em como eu sofri, no que você fez comigo. Nas
noites mal dormidas. Foi como se tudo tivesse voltado ontem. Me desculpa por
ter agido daquele jeito. Eu não queria ter te mandado embora daquele jeito. Eu
só não sabia o que fazer. Eu te esperei esse tempo todo, inconscientemente. Não
conseguia me apegar com ninguém, te comparava com as garotas que eu te
conhecia. Foram tempos difíceis, não é como se eu conseguisse apagar, entende? Por
isso reagi tão mal ontem. Mas peço desculpas pela maneira que falei contigo.” Disse,
enquanto encarava suas mãos.
“Eu
sei e te entendo. Só não me peça para não tentar concertar tudo isso.” – disse,
com os olhos marejados, enquanto evitava olhar nos olhos dele. Encarava apenas a sua
caneca de chocolate quente.
“Eu
não pediria isso, pois estaria me enganando também” – Ele a encarou sério. E
ela sentiu uma chama se reacendendo em seu peito. Sabia que seria difícil. Mas também
sabia que valeria a pena.
“Não
vou propor que passemos uma borracha e comecemos do zero. Pois cada momento que
eu vivi com você me fez ser a pessoa que sou hoje. Só peço que me deixe ganhar
espaço novamente” – Pediu ela.
“Espaço
esse que você nunca perdeu. Sempre foi você Barbara.” – Afirmou ele enquanto se
levantava e ia até o seu lado. Pegou a mão dela para que se levantasse, e a beijou
ali mesmo, um beijo de saudade e muito sentimento envolvido. Um beijo ao som de ‘Balada de um amor inabalável’”. E nada a fez mais feliz como
aquele momento.
“Mesmo que a gente se separe por uns tempos
ou quando você quiser lembrar de mim. Toque a balada, seja antes ou depois, eterna
Love Song de nós dois. Leva essa canção de amor dançante, pra você lembrar de
mim, seu coração lembrar de mim”