
"Já que não tinha sono, foi à cozinha esquentar o café.
Pôs açúcar demais na xícara e o café ficou horrível. Isto levou-a a uma
realidade mais cotidiana. Descansou um pouco de ser. Ouvia o barulho das ondas
do mar de Ipanema se quebrando na praia. Era uma noite diferente, porque
enquanto Lóri pensava e duvidava, os outros estavam dormindo. Foi à janela,
olhou a rua com seus raros postes de iluminação e o cheiro mais forte do mar.
Estava escuro para Lóri. Tão escuro. Pensou em diversas coisas: estavam dormindo
ou se divertindo. Algumas estavam tomando uísque. Seu café então se transformou
em mais adocicado ainda, em mais impossível ainda. E a escuridão dos solitários
se tornou tão maior. Estava caindo numa tristeza sem dor. Não era mau. Fazia
parte, com certeza. No dia seguinte provavelmente teria alguma alegria, também
sem grandes êxtases, só um pouco de alegria, e isto também não será mau. Era
assim que ela tentava compactuar com a mediocridade de viver."
Trecho do livro “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres” – Clarice
Lispector