domingo, 5 de fevereiro de 2017

Fragmento de Clarice


"Já que não tinha sono, foi à cozinha esquentar o café. Pôs açúcar demais na xícara e o café ficou horrível. Isto levou-a a uma realidade mais cotidiana. Descansou um pouco de ser. Ouvia o barulho das ondas do mar de Ipanema se quebrando na praia. Era uma noite diferente, porque enquanto Lóri pensava e duvidava, os outros estavam dormindo. Foi à janela, olhou a rua com seus raros postes de iluminação e o cheiro mais forte do mar. Estava escuro para Lóri. Tão escuro. Pensou em diversas coisas: estavam dormindo ou se divertindo. Algumas estavam tomando uísque. Seu café então se transformou em mais adocicado ainda, em mais impossível ainda. E a escuridão dos solitários se tornou tão maior. Estava caindo numa tristeza sem dor. Não era mau. Fazia parte, com certeza. No dia seguinte provavelmente teria alguma alegria, também sem grandes êxtases, só um pouco de alegria, e isto também não será mau. Era assim que ela tentava compactuar com a mediocridade de viver."


Trecho do livro Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres” – Clarice Lispector

domingo, 29 de janeiro de 2017

O último capítulo

Mais uma taça de vinho. Um gosto suave, uma bebida quente que já estava me deixando bem alegre. As coisas já estavam ficando turvas por aqui... Uma lua crescente, um bom vinho e boas lembranças. Algo melhor pra uma noite sozinha? Realmente não. Eu tinha tudo o que precisava pra terminar de escrever meu livro.
Só precisava de um pouco de espaço, pensei comigo mesma. Tudo bem que a maneira que eu havia pedido isso pra ele não havia ficado clara. Parecia que eu estava me despedindo, quando na verdade eu só havia informado que ia passar duas semanas fora. Viajei na segunda e hoje já era sexta à noite. Diferentemente do que eu pensava, não consegui escrever nenhuma linha. Mas em compensação já havia derrubado quase todo o estoque de vinho que havia trazido.
Eu sentia falta dele tirando minha concentração. Sentia falta dele me chamando pra deitar quando via que já era tarde e eu estava acordada e escrevendo. Queria mesmo que ele estivesse aqui comigo pra me fazer aquela massagem relaxante que só ele sabia fazer.
O único grande problema é que eu estava numa cabana, há quilômetros de distancia da civilização. Não, na verdade o único grande problema é que ele ficou bem bravo com essa minha viagem. Pensei em ligar e dizer pra ele que estava voltando e que estava com saudades, mas fiquei com medo de como ele reagiria a isso.
Apenas continuei bebendo meu vinho. Havia decidido ir embora amanhã bem cedo, mesmo que o aluguel ainda se estendesse por mais uma semana. Dei mais um gole e tomei coragem de fazer a ligação. Primeiro toque, nada. Segundo toque... nada de novo. “O telefone chamado encontra-se desligado para deixar uma mensa...” Derrubei a ligação. Péssima ideia essa. Decidi não pensar muito sobre isso.
O relógio da parede da sala sinalizava que já eram 9 horas da noite. Aquele silêncio ensurdecedor estava deveras me angustiando. Caminhei até a estante da sala, peguei um dos muitos CDs que havia trazido. Decidi optar por Engenheiros do Havaí, as letras de Humberto sempre me inspiraram muito.
Voltei pra minha escrivaninha e tentei me focar na história de minha personagem e esquecer um pouco da minha. Nada me veio à mente. Parecia que meu sistema tinha dado uma pane.
Eu resolvi não insistir. Peguei o celular e comecei a ver as fotos antigas. Sem que eu me desse conta, as lágrimas estavam descendo em meu rosto. Apenas sorri para a última foto que havíamos tirado juntos. E mais uma vez senti um aperto no peito.
Escuto a campainha tocar. O que me deixou bem assustada e com medo. Pelo o que eu sabia, ninguém vem até essa cabana e o ponto mais próximo fica em média há 20 minutos. Apesar de saber que a casa era 100% segura, me senti vulnerável. A campainha toca novamente.
Nesse instante meu celular começa a tocar. Olho para tela e vejo que era ele ligando. Ótimo, pelo menos vou falar que tem alguém querendo entrar.
“Amor?” – eu disse assustada.
“Eu vim em missão de paz, trouxe chocolate, vinhos e filmes românticos” – falou em tom apelativo.
E aquela era a coisa que eu mais quis ouvir durante esses dias. Corri até a porta e quando abri, meu coração se encheu de paz. Corri para seus braços, te dando um beijo. Ele soltou as sacolas que estava nas mãos e me levantou enquanto correspondia com ardor meu beijo.
“Que saudade que eu estava de você” – Falei quando finalmente nos afastamos. Fiquei envolvida em seus braços por alguns instantes, apenas sentido o calor de seu corpo e o cheiro que dele emanava.
“Também senti saudades, pequena”. Disse ele, enquanto beijava minha cabeça.
Puxei ele pra dentro com todas aquelas sacolas e uma mala. E nos sentamos no sofá de frente um pro outro. Antes que eu pudesse falar algo ele começou.
“Eu vi para passar o resto dos dias com você, e não quero discutir sobre isso”. Disse, me olhando firme.
“Eu achei uma ótima ideia. E de maneira nenhuma quero discutir sobre isso. Apenas fica aqui comigo, tirando minha concentração, cuidando de mim, me olhando com essa cara de bobo que você sempre me olha quando acha que eu estou fazendo alguma coisa inteligente. Apenas me deixa sentir seu cheiro e seu abraço quentinho. E por favor, me beija”. – Eu disse, enquanto ele me olhava com a cabeça levemente inclinada para a direita e aquele sorriso no canto da boca que eu tanto amava.
“Seu pedido é uma ordem, meu amor”. Ele me beijou. E ficamos nos curtindo durante muito tempo. Ele começou a mexer no meu cabelo, pois sabia que aquilo meu acalmava.
Aquele era meu lugar. Aquele era o abraço mais reconfortante do mundo e de onde eu não queria sair nunca mais. Fechei meus olhos e acho que adormeci em seus braços. Acordei com o sol entrando pela janela do quarto. E senti aqueles braços envoltos ao meu corpo. Eu não poderia estar mais completa.
Ao acordar, eu me dei conta que já tinha um desfecho perfeito para o meu livro. Como pudera não ter pensado nisso antes? Era tão lógico e fazia todo o sentido.
Sutilmente retirei o braço dele de cima de mim, com cuidado para não acorda-lo. Tomei um banho e fui fazer um café. Enquanto sentia o cheiro forte do café, eu ia escrevendo e finalizando mais um dos meus livros. Eu me sentia feliz e plena. Apesar do medo que havia sentido ontem, o destino tinha me surpreendido mais uma vez.
Eu não podia deixar de sorrir de mim mesma. Aquela viagem, aqueles dias de ausência, aquela saudade, no fundo tinham me ajudado a ver a minha vida com outros olhos.
Ao passo que finalizava o livro, também escrevia mais um capítulo de minha vida.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Mais uma noite

O despertador marcava pouco mais de 2 horas da manhã. Até agora não conseguira dormir. Pensava que deveria ligar pra ele e falar que sentia saudade. Muita saudade. Que todo aquele tempo longe só serviu para ela ter certeza que era ele que ela amava. Olhou o visou do celular, na tentativa de criar coragem. Sabia que muita coisa havia mudado e que ele tinha seguido em frente como ela havia aconselhado anteriormente. Mas ela não tinha seguido em frente. Tentou conhecer outras pessoas, tentou curtir a vida longe dele e de todo aquele sentimento. Por vezes achava que tinha conseguido superar. Mas era sua lembrança que te fazia perder as noites de sono. Era o cheiro amadeirado do seu perfume que fez falta no travesseiro nas noites frias de chuva. Sentia falta daquele psiciano sensível e sonhador, que a fazia acreditar em destinos e amor a primeira vista. Queria ter coragem para discar o número dele e falar tudo o que tinha guardado durante esses últimos meses. Sabia que estava se tornando nocivo para ela guardar tudo aquilo. No entanto, tudo o que fez foi abrir mais uma garrafa de vinho e colocar para tocar a música tema do romance deles, como ele carinhosamente havia batizado. A música “Oh, Darling- The Beatles” embalava mais uma vez aquela noite triste. E ela conseguia imaginar ele cantando em seu ouviu. Mal sabia ele o quanto agora a estava machucando. Só conseguia pensar em como queria que parasse de doer. E quanto tempo ia passar pra deixar de sentir.


Oh, Darling. Please believe me, i'll never do you no harm. Believe me when I tell you. I'll never do you no harm”.