Mais uma taça de vinho. Um gosto suave,
uma bebida quente que já estava me deixando bem alegre. As coisas já estavam
ficando turvas por aqui... Uma lua crescente, um bom vinho e boas lembranças. Algo
melhor pra uma noite sozinha? Realmente não. Eu tinha tudo o que precisava pra
terminar de escrever meu livro.
Só precisava de um pouco de espaço, pensei
comigo mesma. Tudo bem que a maneira que eu havia pedido isso pra ele não havia
ficado clara. Parecia que eu estava me despedindo, quando na verdade eu só
havia informado que ia passar duas semanas fora. Viajei na segunda e hoje já
era sexta à noite. Diferentemente do que eu pensava, não consegui escrever
nenhuma linha. Mas em compensação já havia derrubado quase todo o estoque de
vinho que havia trazido.
Eu sentia falta dele tirando minha
concentração. Sentia falta dele me chamando pra deitar quando via que já era tarde e eu estava
acordada e escrevendo. Queria mesmo que ele estivesse aqui comigo pra me fazer
aquela massagem relaxante que só ele sabia fazer.
O único grande problema é que eu estava
numa cabana, há quilômetros de distancia da civilização. Não, na verdade o
único grande problema é que ele ficou bem bravo com essa minha viagem. Pensei
em ligar e dizer pra ele que estava voltando e que estava com saudades, mas
fiquei com medo de como ele reagiria a isso.
Apenas continuei bebendo meu vinho. Havia
decidido ir embora amanhã bem cedo, mesmo que o aluguel ainda se estendesse por
mais uma semana. Dei mais um gole e tomei coragem de fazer a ligação. Primeiro
toque, nada. Segundo toque... nada de novo. “O telefone chamado encontra-se desligado para deixar uma mensa...”
Derrubei a ligação. Péssima ideia essa. Decidi não pensar muito sobre isso.
O relógio da parede da sala sinalizava que
já eram 9 horas da noite. Aquele silêncio ensurdecedor estava deveras me angustiando.
Caminhei até a estante da sala, peguei um dos muitos CDs que havia trazido.
Decidi optar por Engenheiros do Havaí, as letras de Humberto sempre me
inspiraram muito.
Voltei pra minha escrivaninha e tentei me
focar na história de minha personagem e esquecer um pouco da minha. Nada me
veio à mente. Parecia que meu sistema tinha dado uma pane.
Eu resolvi não insistir. Peguei o celular
e comecei a ver as fotos antigas. Sem que eu me desse conta, as lágrimas
estavam descendo em meu rosto. Apenas sorri para a última foto que havíamos
tirado juntos. E mais uma vez senti um aperto no peito.
Escuto a campainha tocar. O que me deixou
bem assustada e com medo. Pelo o que eu sabia, ninguém vem até essa cabana e o
ponto mais próximo fica em média há 20 minutos. Apesar de saber que a casa era
100% segura, me senti vulnerável. A campainha toca novamente.
Nesse instante meu celular começa a tocar.
Olho para tela e vejo que era ele ligando. Ótimo, pelo menos vou falar que tem
alguém querendo entrar.
“Amor?” – eu disse assustada.
“Eu vim em missão de paz, trouxe
chocolate, vinhos e filmes românticos” – falou em tom apelativo.
E aquela era a coisa que eu mais quis
ouvir durante esses dias. Corri até a porta e quando abri, meu coração se
encheu de paz. Corri para seus braços, te dando um beijo. Ele soltou as sacolas
que estava nas mãos e me levantou enquanto correspondia com ardor meu beijo.
“Que saudade que eu estava de você” –
Falei quando finalmente nos afastamos. Fiquei envolvida em seus braços por
alguns instantes, apenas sentido o calor de seu corpo e o cheiro que dele
emanava.
“Também senti saudades, pequena”. Disse
ele, enquanto beijava minha cabeça.
Puxei ele pra dentro com todas aquelas
sacolas e uma mala. E nos sentamos no sofá de frente um pro outro. Antes que eu
pudesse falar algo ele começou.
“Eu vi para passar o resto dos dias com
você, e não quero discutir sobre isso”. Disse, me olhando firme.
“Eu achei uma ótima ideia. E de maneira
nenhuma quero discutir sobre isso. Apenas fica aqui comigo, tirando minha
concentração, cuidando de mim, me olhando com essa cara de bobo que você sempre
me olha quando acha que eu estou fazendo alguma coisa inteligente. Apenas me
deixa sentir seu cheiro e seu abraço quentinho. E por favor, me beija”. – Eu
disse, enquanto ele me olhava com a cabeça levemente inclinada para a direita e
aquele sorriso no canto da boca que eu tanto amava.
“Seu pedido é uma ordem, meu amor”. Ele me
beijou. E ficamos nos curtindo durante muito tempo. Ele começou a mexer no meu
cabelo, pois sabia que aquilo meu acalmava.
Aquele era meu lugar. Aquele era o abraço
mais reconfortante do mundo e de onde eu não queria sair nunca mais. Fechei
meus olhos e acho que adormeci em seus braços. Acordei com o sol entrando pela
janela do quarto. E senti aqueles braços envoltos ao meu corpo. Eu não poderia
estar mais completa.
Ao acordar, eu me dei conta que já tinha
um desfecho perfeito para o meu livro. Como pudera não ter pensado nisso antes?
Era tão lógico e fazia todo o sentido.
Sutilmente retirei o braço dele de cima de
mim, com cuidado para não acorda-lo. Tomei um banho e fui fazer um café. Enquanto
sentia o cheiro forte do café, eu ia escrevendo e finalizando mais um dos meus
livros. Eu me sentia feliz e plena. Apesar do medo que havia sentido ontem, o
destino tinha me surpreendido mais uma vez.
Eu não podia deixar de sorrir de mim
mesma. Aquela viagem, aqueles dias de ausência, aquela saudade, no fundo tinham
me ajudado a ver a minha vida com outros olhos.
Ao passo que finalizava o livro,
também escrevia mais um capítulo de minha vida.