sábado, 8 de outubro de 2011

Enquanto isso, na biblioteca...


O lugar estava frio e ela podia ver através das janelas que já era noite. Ao seu lado tinha várias estantes de livros, coloridos e de todos os tamanhos, uns mais novos, outros mais velhos.Vez ou outra entrava alguém para pegar algum dos livros ou para ler ao seu lado, todos muito impessoais e de cara fechada. Ali ninguém socializava. Também pudera, uma enorme placa estava pregada bem no meio da porta cinza e grande que dava acesso ao lugar, e tinha escrito em letras grandes e vermelhas SILÊNCIO.Ficava a observar as pessoas que entravam e saiam, e analisava os livros pelos quais as pessoas se interessavam. Ela gostava de observar pequenos detalhes e gravava cada um deles, como uma tatuagem em sua memoria. A atenção era superficial, de modo que, mesmo concentrada e lendo, podia observar discretamente cada gesto ao seu redor.A senhora atrás do computador estava com expressão cansada e entediada, na certa deveria estar apressada pra partir, e algo nela lhe era familiar. O senhor ao lado, lendo um enorme e amarelo livro estava com cara de poucos amigos e mostrava-se inquieto na cadeira azul que estava sentado. O jovem rapaz de cabelos espessos e olhos profundos estava lendo algum manual e parecia muito envolvido e o jovem senhor que entrou e fez uma rápida observação, estava com ar de curiosidade e esperança, como quem estava esperando encontrar alguém lá dentro.Ao fundo, ouvia o barulho de grilos e de uma musica vinda do aparelho de musica do jovem rapaz, que não dava para reconhecer direito, mas parecia ser extremamente agitada.O que mais lhe chamava atenção era a quantidade de livros, sempre sonhara em construir sua própria biblioteca, cheia de contos, romances, historias, bibliografias e afins. Gostava do cheiro de livros novos, mas adorava mesmo o cheio de mofo dos livros mais antigos. Sempre que lia algo, se imaginava com a personagem e na maioria das vezes tomava suas dores. Sonhava em um dia conseguir ter ideias suficientes para escrever um livro, e quem sabe a sorte estivesse do seu lado.Uma vez lera num livro que narrava a historia de vida de uma garotinha, que havia vivido na época da Alemanha Nazista, e que assim como ela tinha fome de livros. A garota era chamada de ‘devoradora de livros’, e era assim que se sentia às vezes, insaciável.Como já estava ficando tarde, as pessoas estavam começando a sair, e um a um se iam, enquanto ela ia ficando sozinha... Queria sair por ultimo e aproveitar o máximo de tempo possível ali, já que provavelmente não voltasse, pois gostava de mudar sempre de lugar, ver novas pessoas, novos livros, buscar novas inspirações. Era assim que vivia, nessa eterna procura, essa era sua essência, era assim que ela se sentia viva...Então, vagarosamente se levantou, caminhou até a porta e saiu, não sem antes dar uma ultima olhada no lugar e se despedir.

quinta-feira, 21 de julho de 2011


E uma coisa eu aprendi nesses ultimos anos... Se não consegue virar a pagina, rasgue-a!

Um café e um amor. Quentes, por favor!

Martha Medeiros


Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
Por fim, a última peça caía, deixando-a nua
"Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.

Arnaldo Jabor


Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também. No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração tribalista se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu. Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc. Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor. Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para amar. Somos livres para optarmos! E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Uma verdade inventada


Era apenas mais uma das noites chuvosas. Eu estava só, com meus desvaneios e minha fértil imaginação. Criar historia era meu passatempo favorito, principalmente quando não tinha nada pra fazer e eu me encontrava sozinha em casa, numa noite chuvosa.
Não há nada melhor do que poder viajar apenas com a imaginação. Ser levada para outros lugares, outras épocas, e tornar tudo aquilo que é um sonho, em uma momentânea realidade imaginária.
Oras, ao menos uma vez ao dia, devemos criar uma fantasia na qual nos permitimos nos liberar de todos os compromissos e obrigações e nos dedicarmos somente a nos mesmos e a realização de nossos desejos.
Acredito que mesmo inconscientemente, todo mundo já fez isso alguma vez na vida. Ou seria eu, a única que, não podendo viver, crio uma realidade inventada?
Apelidos como “cabeça de vento” e afins, são o que mais recebemos por isso, mas quem se importa com os outros, não é mesmo?! “Deixe que digam, que pensem, que falem...”
Quero mesmo é me libertar das limitações, poder viajar nos pensamentos, inventar historias, criar dimensões fictícias...
Quero criar minha própria verdade, ou como diria Clarice Lispector, “não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.”

Fragmentos...


Hoje é domingo de manhã. Está fazendo um dia de sol. A praia estava cheia de vento bom e de uma liberdade. E eu estava só. Sem precisar de ninguém . È difícil porque preciso repartir contigo o que sinto . O mar calmo. Mas a espreita e em suspeita. Como se tal calma não pudesse durar. Algo está sempre por acontecer. O imprevisto improvisado e fatal me fascina. Já entrei contigo em comunicação tão forte que deixei de existir sendo. Você tornou-se um eu. É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silencio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar: olhei para você fixamente por uns instantes. Tais momentos são meu segredo. Ouve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.