domingo, 29 de janeiro de 2017

O último capítulo

Mais uma taça de vinho. Um gosto suave, uma bebida quente que já estava me deixando bem alegre. As coisas já estavam ficando turvas por aqui... Uma lua crescente, um bom vinho e boas lembranças. Algo melhor pra uma noite sozinha? Realmente não. Eu tinha tudo o que precisava pra terminar de escrever meu livro.
Só precisava de um pouco de espaço, pensei comigo mesma. Tudo bem que a maneira que eu havia pedido isso pra ele não havia ficado clara. Parecia que eu estava me despedindo, quando na verdade eu só havia informado que ia passar duas semanas fora. Viajei na segunda e hoje já era sexta à noite. Diferentemente do que eu pensava, não consegui escrever nenhuma linha. Mas em compensação já havia derrubado quase todo o estoque de vinho que havia trazido.
Eu sentia falta dele tirando minha concentração. Sentia falta dele me chamando pra deitar quando via que já era tarde e eu estava acordada e escrevendo. Queria mesmo que ele estivesse aqui comigo pra me fazer aquela massagem relaxante que só ele sabia fazer.
O único grande problema é que eu estava numa cabana, há quilômetros de distancia da civilização. Não, na verdade o único grande problema é que ele ficou bem bravo com essa minha viagem. Pensei em ligar e dizer pra ele que estava voltando e que estava com saudades, mas fiquei com medo de como ele reagiria a isso.
Apenas continuei bebendo meu vinho. Havia decidido ir embora amanhã bem cedo, mesmo que o aluguel ainda se estendesse por mais uma semana. Dei mais um gole e tomei coragem de fazer a ligação. Primeiro toque, nada. Segundo toque... nada de novo. “O telefone chamado encontra-se desligado para deixar uma mensa...” Derrubei a ligação. Péssima ideia essa. Decidi não pensar muito sobre isso.
O relógio da parede da sala sinalizava que já eram 9 horas da noite. Aquele silêncio ensurdecedor estava deveras me angustiando. Caminhei até a estante da sala, peguei um dos muitos CDs que havia trazido. Decidi optar por Engenheiros do Havaí, as letras de Humberto sempre me inspiraram muito.
Voltei pra minha escrivaninha e tentei me focar na história de minha personagem e esquecer um pouco da minha. Nada me veio à mente. Parecia que meu sistema tinha dado uma pane.
Eu resolvi não insistir. Peguei o celular e comecei a ver as fotos antigas. Sem que eu me desse conta, as lágrimas estavam descendo em meu rosto. Apenas sorri para a última foto que havíamos tirado juntos. E mais uma vez senti um aperto no peito.
Escuto a campainha tocar. O que me deixou bem assustada e com medo. Pelo o que eu sabia, ninguém vem até essa cabana e o ponto mais próximo fica em média há 20 minutos. Apesar de saber que a casa era 100% segura, me senti vulnerável. A campainha toca novamente.
Nesse instante meu celular começa a tocar. Olho para tela e vejo que era ele ligando. Ótimo, pelo menos vou falar que tem alguém querendo entrar.
“Amor?” – eu disse assustada.
“Eu vim em missão de paz, trouxe chocolate, vinhos e filmes românticos” – falou em tom apelativo.
E aquela era a coisa que eu mais quis ouvir durante esses dias. Corri até a porta e quando abri, meu coração se encheu de paz. Corri para seus braços, te dando um beijo. Ele soltou as sacolas que estava nas mãos e me levantou enquanto correspondia com ardor meu beijo.
“Que saudade que eu estava de você” – Falei quando finalmente nos afastamos. Fiquei envolvida em seus braços por alguns instantes, apenas sentido o calor de seu corpo e o cheiro que dele emanava.
“Também senti saudades, pequena”. Disse ele, enquanto beijava minha cabeça.
Puxei ele pra dentro com todas aquelas sacolas e uma mala. E nos sentamos no sofá de frente um pro outro. Antes que eu pudesse falar algo ele começou.
“Eu vi para passar o resto dos dias com você, e não quero discutir sobre isso”. Disse, me olhando firme.
“Eu achei uma ótima ideia. E de maneira nenhuma quero discutir sobre isso. Apenas fica aqui comigo, tirando minha concentração, cuidando de mim, me olhando com essa cara de bobo que você sempre me olha quando acha que eu estou fazendo alguma coisa inteligente. Apenas me deixa sentir seu cheiro e seu abraço quentinho. E por favor, me beija”. – Eu disse, enquanto ele me olhava com a cabeça levemente inclinada para a direita e aquele sorriso no canto da boca que eu tanto amava.
“Seu pedido é uma ordem, meu amor”. Ele me beijou. E ficamos nos curtindo durante muito tempo. Ele começou a mexer no meu cabelo, pois sabia que aquilo meu acalmava.
Aquele era meu lugar. Aquele era o abraço mais reconfortante do mundo e de onde eu não queria sair nunca mais. Fechei meus olhos e acho que adormeci em seus braços. Acordei com o sol entrando pela janela do quarto. E senti aqueles braços envoltos ao meu corpo. Eu não poderia estar mais completa.
Ao acordar, eu me dei conta que já tinha um desfecho perfeito para o meu livro. Como pudera não ter pensado nisso antes? Era tão lógico e fazia todo o sentido.
Sutilmente retirei o braço dele de cima de mim, com cuidado para não acorda-lo. Tomei um banho e fui fazer um café. Enquanto sentia o cheiro forte do café, eu ia escrevendo e finalizando mais um dos meus livros. Eu me sentia feliz e plena. Apesar do medo que havia sentido ontem, o destino tinha me surpreendido mais uma vez.
Eu não podia deixar de sorrir de mim mesma. Aquela viagem, aqueles dias de ausência, aquela saudade, no fundo tinham me ajudado a ver a minha vida com outros olhos.
Ao passo que finalizava o livro, também escrevia mais um capítulo de minha vida.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Mais uma noite

O despertador marcava pouco mais de 2 horas da manhã. Até agora não conseguira dormir. Pensava que deveria ligar pra ele e falar que sentia saudade. Muita saudade. Que todo aquele tempo longe só serviu para ela ter certeza que era ele que ela amava. Olhou o visou do celular, na tentativa de criar coragem. Sabia que muita coisa havia mudado e que ele tinha seguido em frente como ela havia aconselhado anteriormente. Mas ela não tinha seguido em frente. Tentou conhecer outras pessoas, tentou curtir a vida longe dele e de todo aquele sentimento. Por vezes achava que tinha conseguido superar. Mas era sua lembrança que te fazia perder as noites de sono. Era o cheiro amadeirado do seu perfume que fez falta no travesseiro nas noites frias de chuva. Sentia falta daquele psiciano sensível e sonhador, que a fazia acreditar em destinos e amor a primeira vista. Queria ter coragem para discar o número dele e falar tudo o que tinha guardado durante esses últimos meses. Sabia que estava se tornando nocivo para ela guardar tudo aquilo. No entanto, tudo o que fez foi abrir mais uma garrafa de vinho e colocar para tocar a música tema do romance deles, como ele carinhosamente havia batizado. A música “Oh, Darling- The Beatles” embalava mais uma vez aquela noite triste. E ela conseguia imaginar ele cantando em seu ouviu. Mal sabia ele o quanto agora a estava machucando. Só conseguia pensar em como queria que parasse de doer. E quanto tempo ia passar pra deixar de sentir.


Oh, Darling. Please believe me, i'll never do you no harm. Believe me when I tell you. I'll never do you no harm”.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A crise do 20 e tantos anos

Aos vinte e poucos anos percebemos que paramos de sair tanto com os amigos e começamos a perceber muitas coisas sobre nós que até então não sabíamos. Entramos em uma fase chamada a crise de ¼ da vida. Começamos a nos sentir inseguros, a duvidar de nossas capacidades. Já não sabemos onde vamos estar daqui a alguns anos. Começamos a notar que os amigos que cultivamos na adolescência já não são mais tão amigos assim, cada um seguiu seu rumo, alguns casaram, tiveram filhos, outros foram embora e você sequer tem mais notícias.  Começamos a sentir saudades do tempo da escola, onde nossa única preocupação era com aquela prova difícil de matemática, ou se aquela pessoa especial iria para aula naquele dia. Percebemos que sentimos falta de coisas simples, como dormir na casa de amigas numa noite de pijamas, ou de passar horas no telefone com aquela amiga/irmã. Notamos que a perda de contato com algumas pessoas importantes fazem falta. Olhamos para nossa vida, carreira... E nem de perto parece com aquela que havíamos imaginado. Eram tempos de sonhar, de pensar grande, de arriscar muito. No entanto a vida de adulto se mostra assustadora. Percebemos que nossas opiniões se tornaram mais fortes, que já não nos importamos tanto com o julgamento dos outros. Que a lista de coisas aceitáveis em nossa vida se tornou bem maior do que o que havíamos imaginava. Notamos que há um movimento inconstante de segurança/insegurança em nossas decisões. Rimos e choramos com maior força. Queremos mudar, no entanto a mudança se torna algo que nos assusta, tentamos nos agarrar ao passado, com aquela vida boa, mas logo percebemos que ela está longe demais para ser alcançada. Não há nada para fazer a não ser seguir em frente. Temos nosso coração quebrado constantemente por pessoas que amávamos, e nos perguntamos como alguém pode nos causar tanto estrago. Nessa idade dos 20 e poucos alguns comportamentos se tornam patéticos. Temos medo de arriscar, por que lidar com erros e fracassos nessa altura da vida já não é mais tão simples. Vivemos podados pelas regras da sociedade. As pessoas esperam que a gente termine a universidade, arrume um bom emprego, case, tenha filhos... No entanto, tudo o que queremos é poder fazer as coisas que fazíamos antes, sem nos preocupar tanto com o amanhã. Só temos uma vida. Devemos sonhar. Arriscar. Viver de modo a ser feliz.



Parafraseando Clarice Lispector: “Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz”.

sábado, 2 de julho de 2016

A GERAÇÃO DE MULHERES INAMORÁVEIS!


Uma vez, em um bar, ela me disse: “Neste mundo existe pessoas inamoraveis, e eu sou uma delas”…Aquilo me intrigou durante toda a noite, uma palavra fora do dicionário que ela usava para se descrever, e por que? A observei enquanto ela, tímida, finalizava mais um copo de cerveja. Eu estava com ela havia quatro horas, quatro horas onde conversamos sobre filosofia, arte, astrologia, cinema e viagens… Quando ela se dirigia ao garçom o bar inteiro parava para vê-la… Tinha seu carro, sua casa e era do tipo que não dependia de ninguém, então por que pensar assim? Teria ela se fechado?
Ela fez uma cara de entediada e me chamou para caminhar enquanto fumava um cigarro, até a saída sorriu e comprimento todo mundo com aquele jeito sapeca de menina do mundo…
Aquilo tudo era muito pequeno e raso para ela, conclui.
Na rua todos passavam apressados, ela se divertia com os animais abandonados, abaixou e entregou sua garrafa de água pró morador da rua, explicou o endereço de uma balada em alemão para um estrangeiro perdido que agradeceu com um sorriso, comprou chicletes de uma criança
E na minha cabeça só ecoava: inamorável.
Foram horas observando aquela garota, até não me aguentar e voltar no assunto… Eu queria entender melhor, eu queria uma definição como num dicionário. Então ela pegou minha mão e me puxou para um bar onde tocava uma banda de rock, ficou em silêncio por longos 30 minutos observando tudo até que disse: – Olhe ao seu redor, estamos já a um tempo aqui. Durante esse tempo por nós passou uma garota chorando por que seu namorado terminou com ela ontem e hoje já está com outra, pois acredita que pessoas são substituíveis… naquela mesa tem 10 pessoas e elas não conversam entre si pois estão nos seus smartphones, talvez aquela garota de vermelho seja a mulher da vida do cara de azul, mas ele nunca saberá pois é orgulhoso demais para tentar. Veja o rapaz de pólo no bar, é o terceiro copo de martini que ele toma olhando pra loira tentando chamar a atenção do vocalista que fingirá que ela não existe por causa da ruiva e da morena que ele pega em dias alternados, e ele não pode ficar mal perante as outras.
Olhe ao seu redor, não fazemos parte disso, não somos rasos, realmente não fazemos parte disso, entramos sem celular na mão, esperando encontrar pessoas legais, com papos legais, com relações reais e voltamos para casa sozinhos, somos invisíveis num mundo de status onde as pessoas não vão te querer por que você mora longe, ou por que não gostam da sua cor de cabelo ou por que você não curte os beatles, acontece tudo tão rápido que as pessoas estão com preguiça de fazer o mínimo de esforço para conhecer realmente alguém e tudo é medido em likes. Eu passo por essa legião como um fantasma pois eles estão ocupados demais para ver quem está redor enquanto procuram alguém no tinder. E eu me importo? Não mais. Sou inamoravel por que não me importo com nada disso.. Nenhum desse status, não ,e importo em quanto tempo levo para conquistar a pessoa, se ela realmente vale a pena, não me importo se terei que atravessar a cidade para vê-la quando tiver saudades e não me importo se ela me presentear com um ingresso pra ir ver o show dos beatles por que é importante para ela mesmo eu detestando a banda. Por que eu sou assim, e se antes era o que procurávamos em alguém, hoje em dia somos considerados inamoraveis por manter o coração e a mente aberta.”
Naquele momento eu a entendi, e me apaixonei pelo mundo dela.

Texto de: Akasha Licourt

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Intolerância à frustração


Como lidar com o fracasso no atual cenário em que vivemos? lidar com os fracassos do dia-a-dia tem sido cada vez mais difícil e é justamente essa falta de sucesso e sentimento de impotência perante determinadas situações que faz brotar a resposta disfuncional, que é o desenvolvimento da emoção negativa da frustração. Tal emoção é percebida como uma das mais comuns dos seres humanos e assim como qualquer outro sentimento, deve ser conduzido e trabalhado de maneira positiva, de modo que sejamos capazes de enfrentar os problemas decorrentes do dia-a-dia sem que isso afete nosso estado de ânimo.
Muitas vezes, por apresentarmos uma percepção distorcida da realidade, tendemos a ver somente o lado negativo de cada situação. Além disso, estamos sempre em busca de manter o controle sobre todos os acontecimentos de nossa vida, e quando nos deparamos com a incapacidade desse controle, surge o sentimento de desanimo, acompanhado pela frustração do insucesso. Precisamos aprender que lidar com uma situação de frustração não significa, necessariamente, que fracassamos em tudo. Desenvolver a tolerância a frustração compreende um processo contínuo de aprendizagem e deve ter seu inicio na infância, perdurando por toda a vida. Com isso, conseguimos procurar soluções mais adequadas para o manejo das situações conflitivas e assim, apresentar um maior leque respostas adaptativas nas circunstancias das quais teremos que lidar com a frustração. 

domingo, 11 de outubro de 2015

Rifa-se um coração

Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu..."...não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: "O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e,  se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta.


Ricardo Labatt

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Namore uma garota que lê!



Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos. Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas. Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro. Compre para ela outra xícara de café. Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice. É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa. É que ela tem que arriscar, de alguma forma. Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo. Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois. Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo. Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo. Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype. Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas. Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê. Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.

Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico